Não, não se trata de saúde

24 ago

Acima de todos os outros, o problema do nosso país é ético. É inaceitável que o governo pague pelo trabalho de seres humanos – em tese livres – a um governo estrangeiro que sequer revela quanto lhes é repassado e que os coage a trabalhar por meio da ameaça a seus familiares usados como reféns. 

Dizem que os médicos cubanos virão ao Brasil de forma voluntária. E se algum deles resolver desistir do trabalho e pedir asilo? Vamos conceder ou deportá-lo para o paredão de fuzilamento? Alguém vai reter seus passaportes ou poderão passar suas férias nos EUA? E se algum deles, sei lá, processar o governo e pleitear isonomia de vencimentos em relação aos médicos de outras nacionalidades? Não permitir que eles exerçam a medicina exceto no programa do governo é reconhecer sua inaptidão ou simplesmente uma forma de restringir sua liberdade? E que autoridade vai responder pelo crime de redução a condição análoga à de escravo?

Afinal, o que difere Castro do empresário que retém dolosamente o salário de costureiras bolivianas? Ou do fazendeiro que viola a liberdade do trabalhador rural e de sua família pelo acúmulo de dívidas? A única diferença é que a violação é do particular num caso e do Estado no outro. 

Entre as várias teses da esquerda que isso desmorona, a que me mais vem à mente é a da Lei da Anistia: ora, o principal argumento que utilizam para condenar agentes da ditadura por tortura e, ao mesmo tempo, isentar os criminosos comuns das mesmas práticas é o de que haveria distinção entre violência do particular e violência de Estado – esta, por ser institucional, seria considerada violação de direitos humanos. Logo, embora sejam situações diferentes e guardadas as proporções, a lógica conduz somente a uma inversão dos papeis ideológicos. Quando a violência ou a exploração é do capitalista, a fogueira. Quando é do socialista, a conveniência do silêncio que ensurdece e da vista-grossa que cega. 

Essa é só uma das contradições patentes. As reflexões sobre essa medida são inúmeras e é difícil estimar quantas normas éticas e jurídicas ela transgride. Governistas podem usar de uma perspectiva utilitarista, apelando para a sensibilidade e argumentando que ela trará muitos benefícios para a população carente, etc. Mas isso levaria à conclusão inexorável de que a máxima de Maquiavel perdura 500 anos depois de sua morte, e em qualquer país democrático ou que pretenda sê-lo, fins não justificam meios. 

E, ainda que discordem, é difícil contradizer os números. Para trazer até 4 mil médicos de Cuba de setembro a fevereiro (6 meses), serão despendidos 511 milhões de reais. Supondo que essa quantidade de profissionais realmente venha ao Brasil e trabalhe por esse período, o valor gasto com cada um será de 127 mil reais, ou, 21.160 reais por mês. É mais do que o dobro do que o governo oferece (10 mil/mês) de remuneração aos demais médicos que se inscreveram no programa. Será que não haveria número muito maior de interessados se pagássemos 50 ou 100% a mais?

É preciso atenção para o que está em curso no País. Não se trata mais da imensa disparidade entre o que se fala e o que se faz. Isso sempre existiu. Contudo, tem sido recorrente falar uma coisa e fazer exatamente o contrário. Com o propósito de se perpetuar no poder, os espertalhões do governo já demonstraram que podem atropelar a ética e as leis sem qualquer remorso. Enquanto tiverem e usarem a imensa massa de incautos que consegue enxergar virtudes na ideologia decadente que levou miséria e defuntos a Cuba, o método será irrelevante.

Sejamos honestos: isso não tem nada a ver com a saúde da população. É política. E política suja como um curral.

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