Mania nacional, entrelinhas e a imprensa

24 ago

Hoje fui surpreendido pela notícia de que a presidente Dilma Rousseff replicou o teor do artigo publicado na revista The Economist. Os britânicos fizeram questão de nos advertir, mais uma vez, que o interesse principal de alguns membros dos partidos menores que compõem a base governista não é ideológico, mas visar a cargos ou ao desvio de dinheiro público. Embora não seja um atributo exclusivo dos nanicos, jamais demais lembrar, não é mesmo? O restante, nada além da reprodução do noticiário das últimas semanas. A oposição de Dilma, porém, é acontecimento que merece destaque por duas razões.

I

A primeira porque é extraordinariamente incomum agentes do mais alto-escalão político de Brasília contestarem publicamente acusações ou maledicências da imprensa. Normalmente, sucedem balbúrdias e agitações nos bastidores. Diante das câmeras e microfones, no máximo repúdios tergiversantes ou ilações falaciosas, raríssimas franquezas diretas sem rodeios, como neste caso.

Minha lógica ridícula, limitada, que só usa 10% da cabeça animal, leva-me a crer que Dilma só respondeu por se referir a críticas procedentes dos vassalos de tia Beth.

Indignar-se com censuras estrangeiras ao Brasil é comportamento emblemático do indivíduo brasileiro. É fenômeno recorrente que gera coesão social. Irrelevante se o conteúdo é válido ou zombado. Não é preciso viajar muito no tempo para relembrar casos notórios.  

Em 2009, Robin Williams afirmou que o Rio de Janeiro fora escolhido sede das Olimpíadas por sua delegação ter levado “50 strippers e meio quilo de pó”, enquanto a de Chicago, Oprah Winfrey e Michelle Obama. No ano seguinte, Sylvester Stallone filmou no país o vão Os Mercenários. Disse depois: “Lá você pode atirar nas pessoas, explodir coisas e eles dizem ‘Obrigado! E aqui está um macaco para você levar para casa’.”

As sabidas brincadeiras, todavia, produziram uma aversão desmedida do público e das instituições. O Comitê organizador das Olimpíadas do RJ, por exemplo, chegou ao ridículo de ameaçar processar Williams. Stallone, por sua vez, pediu desculpas lamuriosas ao Brasil.

Em ambas os casos, a imprensa teve papel preponderante na deflagração dos protestos irados. Quem assistiu às polemizadas entrevistas destes artistas notou claramente o tom alegre e jocoso das manifestações. Omitiu-se, também, a estupefata crítica de Stallone sobre a necessidade da presença de 70 seguranças para as filmagens, além de seu espanto sobre a insígnia do BOPE.

Declarações sisudas também ficam na memória. Charles De Gaulle dizia que o “Brasil não é um país sério”, irrefutabilidade que atravessou os tempos. Em 2004, o jornalista norte-americano, William Larry Rohter, publicou artigo no NY Times no qual afirmou que Lula consumia álcool imoderadamente, o que minava sua capacidade de dirigir o país. Resultado? Rejeição maciça ao jornalista e ao jornal. Sem contar o cancelamento de seu visto pelo governo, que só voltou atrás após desculpas formais.

Parece-me que os brasileiros só se associam quando há uma quase completa convergência de idéias. Indispensáveis a existência do elemento comum a ser combatido, e o impulso da mídia formadora de opiniões, às quais se aderem sem sequer rasas reflexões.

II

Volto à contestação de Dilma, feita em entrevista à Rádio Metrópole, de São José do Rio Preto, e explico a segunda razão por que ela é merecedora de destaque. Vejamos seu conteúdo:

“Agora, infelizmente, as revistas estrangeiras não entendem muito os costumes políticos no Brasil.”

Declarações desastradas de pessoas públicas são freqüentes. Dilma, porém, possui vasto repertório, o que denota mais espontaneidade do que propriamente ausência de aptidão política para aparecer e falar em público. E sinceridade é qualidade raríssima em políticos brasileiros. Embora lhe possa ser prejudicial, trata-se de um bem a ser preservado, ainda que resulte no reconhecimento, pela autoridade máxima da República, da depravação ética e jurídica que toma conta dos poderes públicos.

Afirmar que as revistas estrangeiras não entendem muito os costumes políticos no Brasil nada mais é do que uma forma oblíqua de dizer por aqui tudo isso é corriqueiro, mesmo porque, a The Economist reproduziu tão-somente o que toda a imprensa nacional, analistas e as pessoas em geral têm, há tempos, dito e analisado acerca da conjuntura de Brasília.

III

A imprensa, como se vê, ora presta ora prejudica. Beneficia, por exemplo, ao investigar, denunciar e apurar crimes, tal como ocorreu por duas vezes, recentemente, com a revista Veja, cujos préstimos foram inclusive lembrados pela revista britânica no artigo. Aliás, a edição da última semana também relata o escândalo dos cargos públicos federais de livre-nomeação, mais de 20 mil, utilizados de forma imoral como moeda de troca e barganha, além de propiciarem os elevados índices de corrupção. A título de comparação e para ficar adstrito ao Reino Unido, lá esse número não chega a 100, incluindo os ministros.

Em contrapartida, a imprensa não raro manipula dados e informações, além de dirigir as notícias segundo critérios não pautados pela ética e imparcialidade. Por que não engendrar, por exemplo, uma campanha cidadã contra a corrupção que tem contaminado o Planalto? Vemos tentativas na internet de impulsionar movimentos em prol de um interesse comum, quase sempre frustrados exatamente em razão da ausência de apoio midiático, que alavancaria de forma determinante a adesão da população. Verdade seja dita, isso não ocorre devido ao conluio dos partidos e lideranças com a imprensa: elevam-se as cotas de publicidade de estatais em troca da condescendência e omissão jornalísticas.

Inexistem fórmulas para impedir o funcionamento e a existência desses paradigmas. Soluções estariam no topo da pirâmide, o governo; ou na base, a população. Ambas são remotíssimas: a primeira porque, a cada dia, evidencia-se que a classe política não abrirá mão de seu modus operandi devasso; e a segunda porque a população é mobilizada por entidades e lideranças que estão corrompidas pela classe política dirigente, e influenciada pela imprensa cujos interesses não se coadunam com os populares.

Uma terceira via estaria no fortalecimento de instituições como o Ministério Público, Tribunais de Contas e Controladorias Gerais. Entretanto, isso também depende principalmente da atuação da classe política e de cobranças da sociedade civil, o que significa mãos atadas. Se você aguentou até aqui, é porque se interessa por um desenlace.

Aristóteles dizia que é afortunada a democracia na qual a riqueza é moderada, pois se as desigualdades fossem profundas, os pobres usariam seu poder de maioria para dividi-la. O pensamento aristotélico, neste texto, longe de ser uma retórica crítica à desigualdade brasileira é, acima e antes, lição de que somos senhores do nosso futuro.

Anúncios

2 Respostas to “Mania nacional, entrelinhas e a imprensa”

  1. sirroman agosto 25, 2011 às 1:27 pm #

    O show de comedia de Robbie Willians em que ele fala isso das prostitutas é muito engraçado, na verdade. Não me senti ofendido, vc claramente vê a intenção dele de fazer graça com algo que queria que não tivesse acontecido. Não é muito diferente de reclamar da derrota do seu time jogando a culpa no “juiz ladrão e aquela falta”.

    Ele podia ter feito diferente? Sim, mas é comédia. E moralismo é incompatível com a comédia. Ele inclusive faz muito mais graça com os presidentes (especialmente Bush).

    Por sinal, lá nos EUA todo comediante já tirou graça chamando o Bush de idiota, burro ou coisa semelhante (se puderem, vejam o discurso de Stephen Colbert na Casa Branca, DO LADO de Bush. Fenomenal!). Lá eles aceitam naturalmente essa crítica, aqui precisou Ronaldo botar Lula na linha de tão desmedido que ele estava.

    • contradita agosto 25, 2011 às 3:20 pm #

      Pois é, Rodolfo.
      A imprensa, no caso do Williams, noticiou de forma repugnante, como você mesmo disse, uma coisa que notadamente era uma brincadeira com um encampamento moral. O do Stallone, na internet se viu um repúdio bem grande no twitter, por exemplo. Mas quem viu a entrevista em que ele falou isso, percebeu também o viés de comédia….
      Nos EUA, de fato, as pessoas têm essa cultura muito mais enraizada de aceitar piadas, brincadeiras e até críticas pesadas – que nós brasileiros, certamente repudiaríamos – basta ver o Bill Maher, que em todos os programas escracha a Sarah Pallin e a Michelle Bachmann.
      Embora o texto não tenha deixado o ponto nevrálgico da questão muito claro, acho que deu pra compreender…
      Obrigado pela visita!
      Abraços

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: