O Fim da História e o Choque de Civilizações

19 ago

O colapso da URSS representou a primazia do capitalismo sobre o comunismo. A dicotomia político-ideológica, presente desde a Revolução de 1917, e principalmente após a II Guerra Mundial, perdeu importância e cedeu lugar à reorganização geopolítica, polêmica perdurada até hoje.

A pauta do debate não mais consiste em como os Estados se organizam, pois a prevalência do sistema ocidental de organização política e econômica é consensual. Our way is the only way fora uma expressão que correspondia de forma clara à tendência de ocidentalização erigida no pós Guerra-Fria.

As conseqüências dessa supremacia, contudo, ainda são desconhecidas. Duas décadas é um curto período para se fazer uma avaliação concludente, sobretudo num mundo globalizado, que sofre influências dos mais variados fatores e em que as mudanças ocorrem rapidamente.

Exceção feita à economia de mercado e ao antagonismo clássico entre direita e esquerda, passou-se a discutir os rumos da humanidade conforme questões sociais, culturais, religiosas e tecnológicas. Duas teorias controversas e, de certo modo, opostas, procuram predizer-nos.

A primeira (1989), de Francis Fukuyama, publicada em um artigo da revista The National Interest e, posteriormente, transformada no livro O Fim da História e o Último Homem (1992), assevera que as democracias liberais ocidentais são o último estágio de desenvolvimento político-governamental da humanidade. Assim, as sociedades inevitavelmente convergirão para esse sistema fundado basicamente na concepção universalista-individualista, existente desde as Revoluções Americana e Francesa.

A influência hegeliana é patente na obra de Fukuyama, embora ele admita que esse processo de mudança das sociedades que ainda não estão politicamente organizadas sob o sistema ocidental possa levar séculos. Ainda, retrocessos entrementes podem ocorrer. O ponto central da teoria está no reconhecimento de que a democracia liberal ocidental é a forma de exercício de poder e de governo mais vantajosa sob o prisma ético e econômico.

Sua tese, claro, foi amplamente criticada. O fim da história não é plausível enquanto houver possibilidade de desenvolvimento humanístico, científico e tecnológico – Fukuyama, posteriormente, assumiu essa fratura do seu pensamento. Ademais, várias outras concepções a refutam, ou até caminham na mesma linha de pensamento, porém em direções diferentes, como é o caso do marxismo e do anarquismo. Outros ainda a vêem com certo desdém, sugerindo se tratar de mera homenagem ao triunfo do capitalismo.

A contraposição direta e principal, contudo, surgiu através de um artigo publicado na revista Foreign Affairs (1993), também transformado em livro, O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial (1996). A intenção do autor, Samuel Huntington, era, de fato, responder a Fukuyama.

Para Huntington, o pós Guerra-Fria será caracterizado não pela inevitável conversão às democracias liberais ocidentais, mas pela substituição do conflito ideológico (comunismo x capitalismo) pelo choque das civilizações, que consiste basicamente no conflito cultural dos povos.

Ele divide o globo em sete principais civilizações: ocidental, ortodoxa, islâmica, africana, sínica, japonesa e hindu. Existem outras, mas devido ao seu tamanho ou à aproximação com as demais civilizações predominantes, têm menor importância na análise, como a budista, a judaica e a latino-americana.

As civilizações segundo Huntington

Seus principais argumentos, além de uma porção de estudos e pesquisas empíricas, consistem na aversão das civilizações não-ocidentais ao universalismo ocidental e no conflito entre islâmicos e não-islâmicos. 

A questão da concepção universalista ocidental – liberdade e igualdade individuais, a separação entre autoridade religiosa e autoridade terrena, e mesmo o conceito de democracia, de fato, não são amplamente aceitas em civilizações não-ocidentais. Embora seja inegável que algumas civilizações tenham se desenvolvido científica e tecnologicamente (o Japão é o melhor exemplo) e adotado práticas surgidas no ocidente, isto não significa que sua cultura tenha convergido para este modelo.

Aliás, as práticas do ocidente, Huntington garante, não sinalizam sequer a ascensão do multiculturalismo, mas somente a adaptação dessas civilizações às necessidades da economia globalizada. Nem mesmo o uso da língua – um dos principais fatores de identidade cultural – demonstra essa convergência.

A modernização ou as relações multilaterais pacíficas também não são indícios da ocidentalização, como vários pensadores sustentam. Ele as vê como mera conveniência geopolítica.

Em relação ao islamismo, a principal problemática está na teocracia e nas altas taxas de natalidade (ainda que elas tenham regredido nos últimos tempos). A enorme dificuldade em se modernizar, por exemplo, é resultado desse fanatismo religioso e da aversão mais aguda ao ocidente, indubitavelmente a mais avançada na ciência e na tecnologia.

De modo geral, Huntignton prevê que a principal origem dos conflitos será a cultura, cuja identidade é determinada predominantemente pela religião, valores, práticas e crenças.

Mas, afinal, quem estava certo? Ambos!

A história é repleta de avanços e retrocessos. É um ciclo comum, explicado pela psicologia social. Quando uns visam ao progresso – entendendo o progresso como qualquer mudança – forças contrárias certamente emergirão.

O colapso do sistema financeiro ocidental em 2008, que refletiu e ainda reflete em todo o mundo, revelou ideais ocultos em tempos pacíficos e de bonança. Crises econômicas normalmente aprofundam conflitos étnicos, culturais ou políticos.

As manifestações na Europa, por exemplo, fizeram os líderes das principais economias repudiarem o multiculturalismo e o universalismo ocidental, pregado desde o fim da II Guerra Mundial pelos governos da Alemanha, Inglaterra e França. O atentado na Noruega, país com os índices altíssimos de desenvolvimento sócio-humano, corrobora aquilo que Huntington advertira há quase 20 anos, isto é, o choque das civilizações, em que a intolerância exerce uma das causas principais.

A primavera árabe, por outro lado, constitui exemplo daquilo que Fukuyama previra. Muito embora não se trate de uma ocidentalização dos países islâmicos, as insurgências contra regimes autoritários, mediante a utilização de tecnologias ocidentais, como a internet, corroboram que mesmo os indivíduos que têm no fanatismo religioso seu principal sustentáculo, podem ser influenciados pelo racionalismo ocidental, neste caso traduzido pelas garantias individuais em face do Estado e pelo anseio democrático.

Tanto a profecia de Fukuyama quanto a de Huntington ocorrem e deverão continuar a ocorrer, ora com interstícios de paz, ora de conflitos; ora mediante governos democráticos, ora autocráticos ou teocráticos; ora com riqueza, ora com pobreza. 

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