Molestando a ‘elite’

12 maio

O simpático bairro de Higienópolis está sendo alvo de uma campanha difamatória sem precedente, em razão das declarações do presidente da organização Defenda Higienópolis, Pedro Ivanow, que afirmou não ser do agrado dos moradores do bairro a construção de uma estação de metrô na Avenida Angélica.

Para tanto, utilizou-se de argumentos pouco comuns – talvez sinceros demais – para um representante: a estação traria consigo um “público diferenciado” e o “aumento de ocorrências indesejáveis”.

Em poucas horas, começou a balbúrdia virtual nas redes sociais e, como não poderia deixar de ser, o enviesamento político-partidário da campanha, cujo escopo é notadamente achacar o governo do estado e a elite – um corpo social fictício acusado por mentecaptos e néscios de inimigo dos pobres e oprimidos.

Não entrarei no mérito da viabilidade e conveniência de uma estação de metrô na Av. Angélica. Deixo-o aos engenheiros de transporte especialistas.

Aqui a questão é outra, muito mais grave: uma consciência coletiva, fundada numa visão embaçada do meio social, que rapidamente se difunde pela opinião pública.

Pois bem, não nego que as declarações de Ivanow foram, de fato, infelizes. Seu público diferenciado, claro, são os mais pobres; e suas ocorrências indesejáveis são mais crimes.

Para um freqüentador assíduo do bairro durante vários anos, como eu, não soou tão estranho. Presenciei ao menos dez roubos na região, alguns a garotas adolescentes de não mais de 15 anos de idade. Uma estatística bastante alta até para os padrões paulistanos. Acresça-se a existência de um elevadíssimo número de mendigos pelas ruas. E mais, não faz muitos anos, uma jovem foi morta com uma facada no peito por um assaltante na própria rua Higienópolis enquanto falava ao celular – caso que eu me lembro, embora não tenha dúvidas da ocorrência de outros.

Por isso, o que surpreende não é o fato de não quererem o metrô na região (num ponto específico, diga-se, não no bairro), mas a reação estranha e excessiva do público, que passou a imputar aos moradores dali o terrível defeito de comporem a elite sócio-econômica da capital.

E, essa elite, aliada ao governo tucano, tornou-se a principal culpada pelas mazelas e moléstias sociais da cidade e provavelmente do país – tudo em razão de uma manifestação mal-interpretada.

Analisando a questão isenta de vícios, a posição de Ivanow e dos moradores é justificável. Quem não deseja morar num bairro tranqüilo, onde se pode andar pelas ruas sem medo de ser esfaqueado?! O metrô, a meu ver, não traria mais criminalidade, mas Ivanow provavelmente não sabe disso.

Entretanto, é inegável que os índices de criminalidade são maiores nas camadas mais baixas da população. E canalhas têm medo de falar sobre o assunto porque o consideram politicamente incorreto e preconceituoso. Suas opiniões não servem para uma análise séria. Melhor mesmo seria se ficassem calados para que nos poupassem de sua ignorância, da qual se orgulham.

E aqui entra essa questão do preconceito. Alguns certamente me acusarão de tê-lo. Tudo bem, não quero e nem espero sua aceitação, babacas! Fato é: chega de se vangloriar da pobreza. Quanto maior ela é, maior é o sofrimento do povo – rico ou pobre – decorrente da violência, da falta de um sistema de saúde que funcione e de todos os demais males que ela causa.

Conforme disse, ambicionar morar num bom bairro, ter um bom emprego, ser bem remunerado e ter um carro importado não é nenhum crime; pelo contrário, é até natural. Estranho seria almejar o contrário, não? E quem já tem tudo isso não nos deve nada. Eles não possuem uma obrigação jurídica-social além daquela prevista em lei.

Portanto, não tenham aversão àquilo que vocês chamam de elite. Se a tiverem, apenas se tornarão próximos de uma pequena parcela dos abastados; aquela que justamente tem dificuldade de se situar na realidade social do país em que vivem, e por isso fazem uma distinção humana entre pobres e ricos. Para eles, simplesmente são seres diferentes.

Já em relação à política, talvez inútil digressionar. Porém, não vou me abster: FHC, cuja biografia foi reescrita por seu sucessor com a anuência de seus colegas tucanos, tem sido execrado apenas por ser morador da região. Opa, critiquem seu governo, privatizações obscuras, índices de crescimento do PIB, ou seja lá o que for, mas praticar maledicências à sua pessoa apenas por habitar a região é uma tremenda idiotice, digna de mentes subdesenvolvidas.

E só numa sociedade deseducada como a brasileira é que FHC poderia ser qualificado como representante da elite. Tanto que o bolsa-família, usado pelo PT como forma de manipulação social e eleitoral, foi criado durante seu governo. Isso, entre tantos outros argumentos, demonstra até certa semelhança entre os dois partidos e governos. Isso é a realidade, é a história, é o fato! E não a opinião, a versão mentirosa e deturpada que criaram depois para alienar ainda mais a imensa massa estúpida de contribuintes ou seus potenciais.  

Finalmente, não creiam numa sociedade sem preconceitos. Todos nós os temos, e continuaremos a tê-los até o fim dos tempos. Preconceitos contra brancos, pretos, índios, mulheres, gordos, ricos, pobres, fumantes, vegetarianos, abstêmios, gays, argentinos, americanos, católicos, judeus e por aí se segue indefinidamente. E meu maior preconceito é contra a auto-ignorância declarada e orgulhosa de alguns, e seus truísmos morais que querem incutir a toda a sociedade, para criar a unidade de pensamento e idéias – parafraseando expressões de Noam Chomsky, um esquerdista pensante, e não ambulante, como é a sua maioria. 

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15 Respostas to “Molestando a ‘elite’”

  1. jackson maio 12, 2011 às 4:17 am #

    Até a parte dos “babacas”, estava indo muito bem, com um discurso bem costurado. Mais importante do que ter o direito de fazer um churrasco no higienópolis, ou chamar as pessoas de babaca pela internet, é deixar elas se expressarem. Assim como os babacas se expressaram, você também fez isso. Na verdade é a bandeira que mais me interessa defender. Besteira ou não, opiniões são subjetivas, e mesmo assim, devem ser respeitadas. As deles, e as suas.

    • contradita maio 12, 2011 às 4:24 am #

      Eu respeito.
      Só gosto de deixar minhas opiniões claras, doa a quem doer e sem meias-palavras.
      Obrigado pela visita.

      • Antônio maio 12, 2011 às 4:40 am #

        A questão é muito maior do que os preconceitos, a questão do Metrô é desenvolvimento urbano. E tem que ter estações em cada esquina, Av. Angélica, Av. Pacaembu e etc.
        Por milhares de fatores, por exemplo; trânsito e o acesso dos trabalhadores, quero dizer, babacas, é assim que você os chama, né?!

        • contradita maio 12, 2011 às 4:46 am #

          A meu ver, o desenvolvimento humano da sociedade é mais importante do que o transporte público – embora seja comum as sociedades mais desenvolvidas na questão humana, terem melhor infra-estrutura, da qual o transporte público faz parte.
          Como expresso no texto, abstive-me de tratar da questão do metrô em si.
          Quanto ao “babacas”, releia o texto e verás que, em nenhum momento, usei o termo para me referir aos trabalhadores.
          Obrigado pela visita.

  2. Humberto maio 12, 2011 às 4:48 am #

    Discordo da relação que você faz entre estação de metrô e crimes. Roubos e furtos de veículos ocorrem com frequência nessa região porque as pessoas do bairro são alvos preferenciais dos bandidos. Metrô não me parece um meio eficiente de fuga…
    De resto, concordo. E acrescento que o fato não é novo. Lembro que no morumbi, se me lembro bem, houve gente também que recusou estação da linha amarela e não deu nesse fuzuê. Além disso, o poder público tem feito concessões muito maiores as pessoas pobres. Acho um absurdo, por exemplo, anuir com a construção de moradias em área de manancial. Mas isso é comum hoje em dia. E essa é uma concessão muito maior do que mudar o lugar de uma estação.

    • contradita maio 12, 2011 às 5:00 am #

      Humberto,
      Talvez eu tenha sido pouco claro no texto, mas disse que o metrô não traria mais crimes, no seguinte trecho: “O metrô, a meu ver, não traria mais criminalidade, mas Ivanow provavelmente não sabe disso”.
      A questão tomou essa proporção por causa mesmo da declaração do tal do Ivanow, né.
      Tudo virou preconceito e partidarismo… enfim, não duvido que nos próximos dias ele venha a público se desculpar…
      Obrigado pela visita.
      Abs

      • Humberto maio 12, 2011 às 6:37 am #

        De fato, fiz uma leitura do tipo “scanning” e me escapou essa frase. Fiquei apenas com a estrutura do texto.

        Mas, repara:

        – você primeiro identifica na fala do morador que as “ocorrências indesejáveis” são crimes;
        – depois relata sua experiência e confirma a prática de crimes no local;
        – daí conclui (“por isso…”) que a reação dos moradores é justificável.

        Portanto, é sua hipótese e seu fundamento, mas a conclusão é atribuida ao Ivanow…

        Você então rechaça a conclusão “dele” e inicia o parágro seguinte com “entretanto”, reconhecendo a relaçaõ entre pobreza e criminalidade. Ora, como a maioria dos usuários do metrô são pobres – e esse é o ponto central das críticas -, acho que a frase citada ficou isolada, servindo de tributo ao politicamente correto.

        Para mim os motivos dos moradores são irrelevantes. Eles estão defendendo seus interesses de forma legítima. Quem mais tiver interesse no caso, que se manifeste, ora.

        Eu também não gostaria de ter um monte de torcedores na minha porta todo dia de jogo.

        Essa malhação aos moradores de Higienópolis só se justifica por causa desse “zeitgeist” petista, em que os pobres sempre tem razão, os ricos são sempe privilegiados, os paulistas não prestam, liberalismo econômico é coisa do DEMônio etc

        • contradita maio 12, 2011 às 3:16 pm #

          Talvez haja confusão no uso dos elementos de coesão e conjunções do texto. O que eu quis dizer é que, embora não creia no aumento dos índices de criminalidade no bairro em razão da construção de uma estação ali, acho que Ivanow acredita. Daí suas manifestações. Assim, não há relação entre criminalidade e metrô, mas entre criminalidade e pobreza sim: e é essa questão que eu frequentemente vejo que há receio em se discutir.
          Em relação aos moradores, é isso mesmo que acontece. No caso, o morador que acredita que o metrô trará mais gente ou criminalidade é visto com preconceito por essa parcela da sociedade. Exemplo nítido do zeitgeist ao qual você se referiu…
          abraço!

  3. Ricardo Anacleto maio 12, 2011 às 6:18 am #

    cara, muito bom seu comentario. Infelizmente no Brasil temos a “sindrome do Silvio Santos”, aqui todo mundo acha que para vencer na vida tem que ter nascido pobrezinho e coitadinho . Se voce estudou, trabalhou e é rico todos pensam que você é um fdp, que não tem o direito de vencer, conquistar. Porra, que país é este, vamos pensar grande, vamos nivelar por cima ! Se eu nasci rico não tenho o direito de ser feliz ? repare nestes programas “reality show”, etc, geralmente quem vence é o “pobrezinho”, ” nasceu sem mãe” !!

    • contradita maio 12, 2011 às 3:03 pm #

      Pois é, Ricardo.
      Uma ode à pobreza e à miséria…
      Obrigado pela visita.

  4. dona maio 12, 2011 às 2:39 pm #

    Acho que há regiões da cidade muito carentes de transporte que poderiam ser mais beneficiadas com essa estação do que higienópolis, um bairro que tem toda infra.
    Mas o mais importante:
    Quero informar que, como moradora do bairro, não elegi nem conheço ninguém que tenha escolhido o sr Pedro Ivanow como meu representante. Tudo que sei dele é seu email, pedindo contribuições bem altas aos condomínios do bairro, numa cartinha distribuída aos síndicos, há algumas semanas. Se um décimo dos condomínios contribuirem como solicitado, o senhor Pedro vai obter remuneração de deputado federal, sem ter sido eleito pra tanto.Mas se alguém elegeu o sr Ivanow representante dos moradores foi a Folha de S.Paulo, com o único objetivo de esteriotipar os moradores do bairro.

    • contradita maio 12, 2011 às 3:21 pm #

      Também acho.
      Higienópolis já possui estações perto e várias possibilidades de linhas de ônibus.
      Quanto a Ivanow, segundo divulgado, ele é presidente da associação Defenda Higienópolis. Acho que não é uma associação de moradores propriamente dita.
      Obrigado pela visita.

  5. J R Canela Jr maio 12, 2011 às 3:37 pm #

    Fala ! O texto esta muito bom, mas na minha opinião voce nao deve chamar a galera de babaca, sei que algumas declaracoes no twitter nao fazem nenhum sentido, outras so querem fazer politicagem desvirtuando totalmente o assunto e alguns defensores do atual governo sempre usam a mesma ladainha culpando as elites por todas as mazelas do Brasil. Mas voce deve respeita-los. Primeiro por que muitos deles tem razao ao criticar as palavras do Sr. Ivanow, ele poderia argumentar 1001 razoes para os moradores nao quererem a estacao ali, mas PUBLICO DIFERENCIADO? A questao nao e sonhar com uma sociedade sem preconceitos, mas exigir uma sociedade que aceita os diferentes, por que no final das contas todos somos iguais, por isso nossa constituicao repudia o preconceito. Em segundo lugar voce esta criticando uma atitude mais praticada pelos PSDBistas do que pelos Petistas (implicitamente essas sao as duas figuras de sua materia) que e a critica sem sentido de qualquer assunto com um vies politico sem mais sentido ainda (para confirmar isso leia qualquer materia do estadao). Para terminar, voce nao deve criticar alguem chamando-o de babaca por que isso so te rebaixa ao nivel dessa pessoa, sua materia tratou basicamente sobre a excessiva critica pouco construtiva que temos hoje em dia na internet, o que e muito relevante, seu texto foi muito bem escrito, so escrevi isso porque acho que se voce nao for tao passional seus proximos textos serao primorosos. Tampouco sou critico de alguma coisa, essa e so uma opiniao,, Abs!

    • contradita maio 12, 2011 às 3:54 pm #

      Grande dr., quanto tempo.
      Então, talvez seja agressivo realmente o texto, mas é só o estilo mesmo. Quando se quer falar sobre não-ficção, o ideal é de fato não usar expressões que possam ofender o leitor. Mas não significa que eu não respeite opiniões contrárias…
      Quanto ao Ivanow, achei infeliz sua declaração. Talvez seja retrato mesmo do que ele pensa, talvez não.
      Tentei focar o texto nesse pensamento vigente de que os ricos são culpados pelos problemas, tal como você apontou. E, nesse caso específico, o que eu vi na internet foi a guinada para a questão política-partidária – decorrência provável do fato de FHC ser morador ali do bairro.
      E acho que todas as opiniões são críticas, principalmente nas ciências humanas…
      Por fim, cara, avisa quando vier pro Brasil pra gente marcar algo e colocar o papo em dia…
      abração!!

  6. PEdro maio 12, 2011 às 3:49 pm #

    Muitooo bom!!..Rarissimo achar este tipo de pensamento no Brasil hoje em dia, está de acordo com tudo oque eu realmente penso. Mas, acho que não vai ter jeito, a mídia como adoto esse tema vai pressionar a situação de uma maneira tão absurda que existe a possibilidade de voltarem atrás, oque seria a vitória dos “humildes” contra os “Burgueses”..uma pena.

    Nós acordamos cedo, trabalhamos, estudamos, subimos na vida pra virar inimigo do proprio povo.

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