Perspectivas sem Bin Laden

9 maio

A morte de Osama Bin Laden me fez refletir: qual será o futuro do mundo? O jogo de gato e rato que o terrorista desempenhou – como ninguém – durante uma década com os EUA coloca-o como um dos personagens mais ímpares da contemporaneidade. Em parte do universo árabe, criou-se uma mística e certa devoção em torno de sua figura, em virtude de ele ter engendrado o mais chocante atentado terrorista da história, e saído ileso durante todo esse tempo.

Mas Bin Laden não é mais importante – embora os EUA tentem descaracterizar o misticismo que se formou em torno dele. Para isso, ao invés de divulgar fotos e outros documentos comprobatórios de sua morte, trazem ao público vídeos seus treinando discursos e o acusam de tingir a barba de preto (?)… Tal como fizeram com Saddam Hussein após sua captura, querem atribuir a Bin Laden a pecha da opulência e da vaidade a fim de desconstituir o mito.

Advogando a favor da transparência e da publicidade do Estado, devo resistência a essa conduta, incondizente com a pregação moralista e libertária norte-americana. Moralista porque pretende colocar seu sistema político como modelo aos demais; e libertária porque apóia as revoluções contra ditadores teocratas.

Talvez a democracia norte-americana sirva realmente de exemplo. E, claro, não defendo déspotas sanguinários que abatem seus adversários. Mas, há uma disparidade entre o que os EUA falam e o que fazem: em âmbito interno, tratam seus problemas de forma até evoluída para os padrões que nós, brasileiros, estamos acostumados. Só que no âmbito internacional pretendem exercer sua hegemonia militar e econômica mediante força e/ou coação.

Os exemplos são incontáveis a partir da segunda metade do século XX. Apoiaram praticamente todas as ditaduras latino-americanas, servindo-lhes armamentos, treinamentos militares e até agentes da CIA que se tornaram presidentes. Fora das Américas, intervieram na Coréia e no Vietnã, só pra citar os mais conhecidos. Já nos anos 90, ações militares na África, Bálcãs e Oriente Médio. Os pretextos também são variados: primeiro o combate à disseminação do comunismo, o subterfúgio de intervenções humanitárias e, agora, a guerra ao Terror.

Fechar os olhos a isso é recusar a História. E, se querem perscrutar as razões de tanto ódio aos EUA, é necessário olhar pra trás. Mas, não escreverei um tratado sobre isso. Ater-me-ei à guerra contra Bin Laden e contra o terrorismo.

O primeiro já é passado. O segundo ainda está longe de sê-lo. Talvez nunca o seja… Não creio se tratar de uma guerra que possa ser vencida. Claro, os jihads estão dispostos a dar suas vidas por Alá. Essa veneração extrema inexiste no Ocidente. E este, enquanto tido como inimigo, será o alvo principal de atentados e homens-bomba.  

Todos os estudos e pesquisas de órgãos sérios colocam os EUA como maior ameaça à paz mundial, ganhando com folga de Bin Laden, terrorismo ou Al Qaeda. Isso não é novidade. Mas é necessário compreender que quanto maior o intervencionismo, maior também é o ódio. Lógica simples e fácil! Que se torna complexa na medida em que o iluminado povo ocidental é alienado por seus governos.

Isso restou muito claro na administração de Bush II. Depois de 11/9, incutiram o medo em seu povo, chegando ao ridículo de ser criar cores para qualificar os alertas da ameaça terrorista. Pois bem, aqui vai outra lógica simples: povo com medo consome mais (principalmente produtos de financiadores da campanha republicana) e apóia ataques militares contra o Terror. Também não preciso dizer que o maior beneficiado dessa guerra é a indústria bélica, importante aliada de Bush.

Obama, por sua vez, eleito pelo discurso da mudança, nada mudou. Tudo bem vai, sabíamos que ele continuaria dormindo com os bancos e indústrias de armas, mas poderia, pelo menos, fechar definitivamente Guantánamo, um estigma indelével da guerra ao terrorismo que contraria todas as normas do direito internacional, às quais os EUA demonstram, de fato, não dar a mínima importância.

Aliás, a operação que culminou na morte de Bin Laden é um precedente preocupante para o direito internacional, e deve ser visto pelo mundo com cautela. Pouco, ou quase nada, falou-se sobre o assunto. Foi uma medida calculada pelos EUA, pois o Paquistão, suspeito de acobertar o terrorista, não poderia condenar a operação sob pena de ser acusado pela comunidade internacional de oferecer abrigo a ele. Além disso, estamos falando do homem mais perigoso do planeta; o importante é que ele morreu e não sob que circunstâncias.

Mas, façamos um exercício valorativo. Como se mede a vida humana? Há diferença entre a morte de mil e a morte de um? E se esse um, leitor, fosse a sua filha? A vida humana não se mensura. E aqui eu não estou defendendo Bin Laden. Apenas uso o exemplo para demonstrar a você que a conduta dos EUA deve ser repudiada.

Ora, imagine-se que os carabinieris ou agentes do serviço secreto italiano viessem ao Brasil e matassem Battisti, terrorista abrigado por Lula. Haveria aí a violação do princípio da soberania (para não citar o estardalhaço da opinião pública), premissa básica do estágio atual das relações internacionais e da humanidade, sem a qual a convivência pacífica se tornaria impossível.

Entretanto, não é só uma premissa jogada ao vento. É uma regra, positivada e ratificada pelas Nações Unidas e todos os seus membros, inclusive os EUA. Também não preciso dizer que uma operação dessa natureza (um homicídio) – hipotética no caso Battisti, mas real no caso Bin Laden – viola o direito humano mais elementar.

E aqui os senhores farão outro exercício valorativo: Bin Laden fazia jus aos direitos humanos? Não sei, talvez não. Cada um que pense o que bem entender. Mas qual o critério utilizado para determinar quem é e quem não é merecedor dos direitos humanos? Nesse caso, coube aos EUA decidir, unilateralmente, que Bin Laden deveria ser executado sumariamente, de acordo e segundo aquilo que eles acham certo.

E é aqui que reside o perigo: exatamente porque agem de forma unilateral que os EUA constituem a maior ameaça à paz mundial. Essa conduta, sejamos também honestos, não é privilégio norte-americano. A história foi escrita assim. Porém, isso não significa que devamos aceitar com agrado suas conseqüências. Pelo contrário. Hoje, embora o desenvolvimento tecnológico-armamentista avance de forma muito mais rápida que o ético-universal, pode-se afirmar que no estágio humano atual, ninguém deseja retroceder para presenciar, de novo, atrocidades históricas como genocídios, guerras nucleares ou extermínios em massa.

Precisamente nos últimos quinze anos, os EUA têm basicamente utilizado de duas formas de conduta no âmbito internacional. A primeira, cuja doutrina foi empenhada por Bill Clinton e continuada por Hillary, diz respeito às chamadas intervenções humanitárias e à exportação de valores universalmente aceitos e tidos como justos, como a democracia e as liberdades individuais.

A segunda, doutrina de Bush, não se preocupa tanto com a opinião pública nacional ou estrangeira, e defende a ação e intervenção unilaterais, como formas de combate ao terrorismo e a todos que representem perigo à segurança dos EUA. Esta doutrina funda-se basicamente nas chamadas Razões de Estado, conceito que atravessa séculos, chegando a Maquiavel, para quem os fins justificam os meios. Hitler a utilizou muito bem como pretexto para o expansionismo da Alemanha Nazista.

Essa forma de conduta dos EUA, seja por uma ou outra doutrina, tem explicação. Desde o final da 1ª Guerra Mundial, a economia norte-americana tem na indústria armamentista uma importantíssima sustentação. Gera riqueza e empregos para milhões de pessoas que, conseqüentemente, consomem outros bens. Não é difícil concluir que sem guerras e conflitos não haveria necessidade de indústria bélica, causando todos os demais males econômicos e sociais que daí decorreria. É uma espécie de círculo vicioso. Ou só eu acho uma incongruência um país se auto-intitular defensor da paz e da democracia e ao mesmo tempo ser o maior produtor de armas?

Tanto por isso, Obama sequer ousou cumprir suas promessas de campanha. Sabe que o dano será grande. Mas o cenário não é de todo estarrecedor. A sociedade norte-americana é muito plural, e ao menos internamente, respeitam e levam a sério suas liberdades individuais de escolha, opinião e religião – embora ainda exista uma importante parcela social, representada pela direita-religiosa, muito intolerante.

Assim, o povo norte-americano desempenhará um papel determinante no futuro. Com a ascensão e crescimento rápido de outras economias nas últimas três décadas, aliada ao declínio gradual da importância dos EUA, em não muito tempo sua hegemonia estará ameaçada. E as conseqüências disso dependerão, e muito, da forma pela qual sua sociedade lidará com essa questão, diga-se, inevitável, pois não há como competir economicamente com os chineses. Caso essa consciência coletiva for guinada para o intervencionismo, o conflito e a guerra, fácil prever uma situação pouco animadora.

Até isso ocorrer, é necessária uma reformulação na concepção do papel da ONU e de seu Conselho de Segurança, que se mostraram falhos no objetivo de se preservar os direitos humanos e a solução pacífica dos conflitos, sejam internos, externos ou ambos – muito embora o órgão internacional ainda constitua a mais importante e eficaz mantenedora da paz. Mas o descumprimento das decisões do CS, em Kosovo e no Iraque, foi um duro golpe à credibilidade da instituição, o que demonstra a necessidade de mudança, seja em relação à composição dos membros permanentes e seu poder de veto, ou na forma de eleição e poder dos rotativos. 

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