Facetas da conjuntura política brasileira

20 abr

Começo a escrever isso sem saber por onde começar e muito menos onde vai parar. Há muito vêem me pedindo para escrever sobre a situação do Brasil. Se não tem nada a dizer, fique calado. E realmente eu não tinha nada a dizer. Descreio em meu país – atirem as pedras, hipócritas sem-vergonha. Seu moralismo retórico e sujo com o qual tentam me constranger não vai funcionar, canalhas. Mas é hora de colocar certezas!

Atingimos um estágio aterrorizante da estupidez político-humana. A começar pela fraude eleitoral de 2010. Venderam um Brasil e entregaram outro bastante diferente. Cadê o país consumido pelo consumo?! Não-criação de novos tributos?! Sociedade participando de reforma política?! Vejam, e vejam Bem, tornaram-se compromissos vazios que se desfizeram tão logo o resultado das urnas foi proclamado.

Essa bizarrice política tornou-se tão trivial que mesmo alguns, outrora pensantes, deixaram-na de lado, para em seu lugar rasgar elogios à atuação Responsável do governo subseqüente. Tomo-lhes, portanto, seu lugar. Não o merecem, traidores!

De Gaulle estava certo: o Brasil Não é um país sério! E não ousem atribuir tal culpa à classe política. A culpa é Nossa mesmo. Aceitamos passivamente sem questionar toda e qualquer babaquice contaminada por um discurso politicamente correto, saudável por fora e canceroso por dentro.

Vejam Lula, que deixou o governo com aprovação recorde do povo, embora essa referência não lhe seja lá muito favorável, já que aquele mesmo elegeu Tiriricas, big brothers globais e ex-jogadores de futebol falidos conhecidos não por sua reputação ilibada. Olhando por esse lado, é até um demérito, não? Lula usurpou e corrompeu todas as instituições do Estado, e mesmo assim saiu aplaudido. É tido por muitos degenerados como um messias. O populismo é muitas vezes uma mazela que aniquila e precisamos estar preparados para Combatê-lo a todo e qualquer custo.

Pois a veneração sacra e incondicional a líderes políticos é uma insanidade no mínimo perigosa para a paz e para a democracia. A história já comprovou essa incompatibilidade; ainda que de forma mais nítida no aspecto internacional, a premissa vale também para o âmbito interno de qualquer república. Isso se agrava em países cujo sistema político democrático é pouco consolidado, como o nosso. Há muitos espaços para abusos, e Lula aproveitou-se deles sem nenhum embaraço. Mentiu e saiu impune. Fim dessa história.

Lula é passado. Hoje temos Dilma, eleita pelas mentiras de Lula e por sua gastança irresponsável, que a obrigaram a implantar… políticas responsáveis. Mas, política responsável no Brasil não é exatamente o que a etimologia da palavra sugere. Pelo contrário, significa, entre outros, gastar menos em educação.

Ensinar cidadania, por exemplo, a toda essa gente, pressupõe explicar o que é anomalia do voto secreto no Congresso, a verba parlamentar usada como barganha, ou ainda, medidas provisórias do executivo que diariamente são utilizadas com fins obscuros. É demonstrar que o custo do trem-bala ou de Belo Monte será, digamos, uns 30 bilhões acima do previsto oficial divulgado pelo governo. Isso pode causar certa repulsa em 200 milhões de pessoas, e é um risco que poucos estão dispostos a correr. Há muito em jogo, meninos!

Nosso povo não exerce a soberania que a detém na teoria. E quando a exerce, como foi o caso da lei da ficha limpa, o judiciário encontra subterfúgios jurídicos para decretar o fim da festa popular. Os representantes não nos representam! Representam, em primeiro lugar seus próprios interesses, depois os do partido e financiadores de campanha, depois os dos aliados, depois os da oposição – para que não coloquem obstáculos aos interesses dos primeiros – e, se sobrar algum tempo ou dinheiro, dedicarão a você. Pois bem, num país em que a carga tributária é uma das maiores do mundo e onde o Estado não provê absolutamente nenhum serviço minimamente satisfatório, e também no qual os representantes do povo trabalham três dias por semana, não é difícil concluir que você está em maus lençóis, cara! Boa sorte!

Mas eu não vou parar por aqui. Aproveitarei que você já agüentou essa desgraça para anunciar outras situações graves e nocivas que batem à nossa porta. É o caso do imortal José Sarney, que tomou a frente de uma nova, viciosa e patética campanha pelo desarmamento de armas legais. Esperou para atacar como uma coruja selvagem faminta espera no calar da noite por sua presa. Bem, nós somos a presa, e se não ficarmos atentos seremos abocanhados por esse traiçoeiro animal. E o momento certo para o abate veio semana passada, quando um demente depravado invadiu uma escola e executou a tiros N crianças.

Sarney, outro depravado, porém calculista e oportunista, rato de uma política suja tal como é, aproveita-se do incidente que gerou comoção e lágrimas – até da aparentemente insensível Dilma – para pretender a convocação de outro custoso plebiscito sobre armas lícitas. Como se a arma que matou aquelas crianças tivesse sido comprada no shopping center. Não me parece algo engendrado por Sarney e também desconheço os interesses sinistros que invariavelmente motivam decisões e pretensões políticas como essa, ainda mais se tratando do PMDB.

Mas, como cidadão dessa república, devo oposição a esse espetáculo circense imbecil por razões muito simples: essas armas não são o problema. O Problema é que no Brasil tenta-se resolver tudo com medidas paliativas. Nesse caso, nem medidas paliativas são, pois não mitiga o problema nem parcialmente e nem temporariamente. Em segundo lugar porque o povo, embora não raro tome decisões erradas, acertou nessa questão há menos de uma década. E chega também de Sarney, que nos cansa, mas não se cansa.

E que tal falarmos de Jair Bolsonaro, figura política que tem causado polêmica? O deputado, cujas declarações horripilaram os bastiões do politicamente correto, está em ascensão no cenário nacional, pois é uma espécie de embaixador de uma camada da população sufocada pelo moralismo que a companheirada quer impor. Unicidade do pensamento logo será obrigada em lei. E a liberdade será surripiada aos poucos. Claro, liberdade é o direito burguês por excelência, consagrado por uma revolução burguesa dos novos ricos europeus e norte-americanos. Marx já nos avisou há uns 150 anos. E o maldito velho barbudo não erra, não é mesmo?

Volto a Bolsonaro, do contrário, perder-me-ei numa digressão que certamente o cansará, leitor. O parlamentar é conhecido por ser um defensor ferrenho da ditadura brasileira. É um reacionário-conservador com ares de loucura e intolerância. Mas, ora, vivemos num suposto Estado de Direito. Pelo menos é o que está escrito naquilo que Lula e tantos outros violaram, a que chamamos de Constituição, o contrato social do povo – redigido, diga-se, por um bando de malucos, muitos dos quais sequer sabem o significado do documento. E é direito tanto do parlamentar como de todos os outros cidadãos expressarem suas opiniões e crenças.

E justamente por ser um direito elementar da frágil democracia brasileira, deve ser preservado e cultivado. Trata-se de dever cívico opor-se à queimação de Bolsonaro na fogueira da moralidade. Não porque concorde com ele, mas precisamente porque se um Deputado será privado de sua liberdade, o que será de nós, reles mortais sem privilégios e prerrogativas especiais?

É dever de todos também repudiar qualquer forma de preconceito, inclusive contra opiniões reacionárias do singular deputado. Ele certamente confundiu-se ao associar negros com promiscuidade. Não há sensatez aí, nem mesmo para um louco. Notícias divulgadas recentemente asseguram que a comissão da Câmara dos Deputados acatou seu argumento de defesa, que a mim parece coerente. Aliás, todos esses pregadores e defensores do moralismo, que pedem a cabeça de Bolsonaro, deveriam votar e aprovar o projeto de lei proposto por ele que prevê cotas raciais no Congresso. Do contrário, calem-se e engulam a hipocrisia. E chega também de Bolsonaro e suas espalhafatosas declarações, às quais ninguém ouve.

A ignorância da maioria e o oportunismo da minoria beneficiada serão determinantes para a manutenção deste cenário estarrecedor. Seu futuro é incerto. Eike Batista que o diga: perdeu em um dia o lucro anual dos maiores bancos do país. A única certeza mesmo é a continuidade de Sarney (rá rá)! Atentem-se, meninos!

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Uma resposta to “Facetas da conjuntura política brasileira”

  1. Nélsinês abril 23, 2011 às 12:35 pm #

    Parabéns pela análise! Sempre clara, lúcida, crítica, corajosa!

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