A alienação e a derrocada da democracia

1 jan

Após dois meses de inatividade devido à falta de tempo, volto aqui.

Dediquei meus escritos neste espaço à política. Apontei os erros e as razões por que o PT não poderia continuar no poder. Infelizmente, nossos esforços não foram suficientes para superar a falta de consciência política de nosso povo. E eu afirmo isso sem medo de errar. Afinal, não há verdades; mas versões e opiniões.

A minha sustenta-se em valores que transpõem números de crescimento da economia. Mas não a da maioria dos eleitores. Muitos têm aversão à política. Todos são iguais, dizem outros categoricamente. A vida da maioria provavelmente não mudará com este ou aquele político. Alguns, ainda, acham que o pragmatismo governamental na condução econômica é – ou, no caso, foi –  o mais importante, em detrimento de todo o resto. Entretanto, sinto-me obrigado a externar o que lhes direi.

A democracia faliu! A começar pelo voto obrigatório. Nas democracias, todas as condutas a que os indivíduos estão sujeitos e compelidos a seguir, pela lei e sujeitos a punição em caso de descumprimento, só pode se justificar pelo bem de todos, maiorias ou minorias, ou ambos. Em outras palavras: visa à garantia dos direitos que os cidadãos pretendem manter enquanto associados e ligados por uma espécie de contrato, que hoje chamamos de Constituição. Por si só, isso desmorona a obrigatoriedade do voto, já que o não exercício desse direito não causa prejuízo aos demais indivíduos. A pessoa que se abstém de eleger seu representante, aceita tacitamente as decisões que sobrevirão, já que renunciou ao direito de votar.

No âmbito da sociedade, este é o ideal. É o dever ser. Tudo aquilo em que nos inspiramos e os fins que almejamos, está no plano das idéias. O plano fático é um pouco mais complicado. No caso do voto obrigatório, por exemplo, está-se diante de duas possibilidades: cortar o mal pela raiz, extinguindo-o e, consequentemente, facultando apenas àqueles que possuem interesse, eleger os representantes que ditarão os rumos da política; ou, alternativamente, manter a obrigatoriedade do voto enquanto a sociedade, o governo e os indivíduos não atinjam um grau de desenvolvimento capaz de sustentar a responsabilidade do voto facultativo, pois a extinção é acompanhada da manipulação das massas e da compra de votos.

A própria Constituição é ideal. Os direitos sociais que todos possuem são mero fim a ser atingido e buscado. Esse é um dos grandes problemas da contemporaneidade: não se trata mais tanto de redigir, documentar e assinar aquilo que os indivíduos almejam, mas de procurar e encontrar formas de exercer aquilo que já está expresso. Já seria um enorme passo.

Aliás, os direitos sociais são outro exemplo dos fins desejados. Ou o salário mínimo garante ao indivíduo seu sustento e o de sua família, além do lazer, transporte e inúmeros outros direitos?! Ainda, em relação ao salário mínimo, constitucionalmente, seu poder aquisitivo deve ser sempre preservado, em razão da inflação e outras mudanças econômicas, através de reajustes periódicos. Mas, isso ocorre na prática?! Obviamente que não. O aumento do salário mínimo para R$ 540,00 é uma prova cabal do que se afirma. Esta, aliás, é somente mais uma das muitas razões pelas quais a democracia de que tanto se fala é puramente fictícia.

Os direitos do indivíduo são diariamente solapados e não raro ele não tem a quem recorrer. E eu digo isso especialmente hoje porque Dilma Rousseff toma posse na presidência. Longe de ela conseguir resolver talvez a questão prática mais importante das sociedades: o exercício e a efetividade dos direitos positivados na Constituição e leis. Mas, espero que, ao contrário de Lula, ela não saia com a arrogância e a pressuposição atrevida e grosseira de que mudou o Brasil.

O governo petista tem, sim, seus méritos. O maior deles provavelmente foi de demonstrar que se pode crescer economicamente ao mesmo tempo de prestar assistência à imensa massa miserável.

Mas isso não subtrai, tampouco ameniza todas as máculas e infâmias que acompanharam sua gestão. Quando direitistas chamados de reacionários dizem por aí que o Brasil demorará décadas para se curar do lulismo, eles não estão totalmente errados.

Se um governo que se sustentou à base de bravatas e mentiras, que tomou para si realizações alheias, que qualificou de “herança maldita” a boa administração que pegou do antecessor, que quase sempre foi conivente com a corrupção e com os desvios morais e éticos de seus correligionários e aliados, consegue eleger uma sucessora que jamais ocupou um cargo eletivo, alguém cuja biografia política é praticamente nula e de quem nunca tínhamos ouvido falar antes da queda de José Dirceu, significa que a alienação e a consciência política do povo – a que me referi no primeiro parágrafo – atingiu um patamar preocupante.

E isso está intimamente ligado à falência da democracia, pois a alienação é, junto com outras mazelas, inversamente proporcional ao desenvolvimento e ao progresso democrático.

Lula corrompeu todas as instituições. Tornou-se inimputável. Desmentiu mentindo. Usurpou o poder. Serviu-se da ignorância do povo brasileiro, conquistada pelo populismo maléfico que invariavelmente corteja com o autoritarismo, para justificar as exorbitadas e abusos de seu mandato. Quem ousa criticá-lo é acusado de torcer contra o Brasil. Sai hoje como o político mais popular da história brasileira.

Mas, eu digo-lhes: as Repúblicas precisam de Homens, não de Mitos.

 

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4 Respostas to “A alienação e a derrocada da democracia”

  1. Carlota janeiro 1, 2011 às 10:04 pm #

    A obrigatoriedade do voto não implica em restrição ao direito do cidadão.
    Haverá o “voto de cabresto”, com ou sem a obrigatoriedade do voto…

    Não acho que o governo Lula foi o mais corrupto de todos…

    O discurso da Dilma para o Congresso foi muito bom…

    • contradita janeiro 1, 2011 às 10:35 pm #

      Eu não sei que horas você leu o texto, mas havia um erro – já devidamente corrigido – na redação.
      O que eu quis dizer foi que o voto facultativo estimularia a compra de votos e a manipulação, o que é mais difícil de ocorrer no voto obrigatório.
      Quanto ao direito do indivíduo, sempre que a lei o obriga, impondo uma pena àquele que a descumpre, há restrição à liberdade. E obrigar um indivíduo a proceder de determinada forma, como é o caso do voto obrigatório – utilizado no caso como mero exemplo – só é justificável se a sociedade for prejudicada de outra forma, ou seja, o voto facultativo. Por isso, na essência, isto é, no plano ideal, o voto obrigatório não se justifica. Talvez se justifique por outras razões.

      Se o governo Lula foi ou não o mais corrupto, é difícil dizer. Não há um termômetro que meça isso. Mas foi o governo em que mais se “achou normal” a corrupção. Governo e partido se misturaram, e seus eleitores os defendem independente das condutas criminosas e dos desvios éticos – isso é a alienação e o fanatismo, incompatíveis com a Res Publica – e o que é inadmissível se o país pretender se desenvolver e, futuramente, ocupar uma posição de destaque inclusive entre os países onde não se admite corrupção e, a moralidade, a impessoalidade e o senso de justiça, acompanham os governos, como é o caso dos EUA, da Suécia e, em escala menor, da Alemanha.

      Já o discurso de posse da Dilma, não vi. Nem do Alckmin. Esses discursos são puramente eivados de retórica barata e mentiras.

      O que precisamos mesmo é de sabatinas e entrevistas com os políticos, coisa que quase nenhum faz. O que eles fazem são pronunciamentos ou, quando há perguntas de jornalistas, eles só deixem perguntar 1 única vez – o que não adianta nada, pois para o jornalista competente, o que interesse é a 2a pergunta, a réplica, o momento em que se verifica se o político fala mesmo a verdade. O próprio Lula deu 2 ou 3 entrevistas assim durante 8 anos de governo.

      Obrigado pela visita…

  2. Dalva janeiro 22, 2011 às 10:50 pm #

    Parabéns! Faço minhas as suas palavras, pena que tão poucas pessoas estejam dispostas a, ao menos, pensar sobre o assunto e refletir sobre a real posição do povo brasileiro neste processo de transformação que vive o nosso país.

    • contradita janeiro 27, 2011 às 2:31 pm #

      Obrigado pela mensagem e pela visita, Dalva.
      Desculpe a demora para publicar seu comentário e respondê-lo.
      Estou com falta de tempo para escrever aqui.
      De qualquer forma, estou redigindo um novo texto, que trata do reflexo das ações imorais na sociedade e a maneira pela qual o Estado e os poderes lidam com elas.
      Aguardo nova visita!
      Luiz

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