Debate acabou surpreendendo

11 out

Serra e Dima mediram forças ontem

Sem a presença de Plínio Sampaio, não queria assistir ao debate da Bandeirantes. Sua ausência priva-nos, telespectadores, de seu misto de marxismo moderno com humor sarcástico, e certamente hoje dormiria logo no 1º bloco, mesmo com a falta de sono.

Procurei por algum filme, mas parece que a TV a cabo está seguindo à risca a TV aberta, e sua programação nas noites de domingo também anda muito ruim. E, já que toquei no assunto da televisão paga, não posso deixar de citar um dos recentes projetos do governo para o setor.

Se aprovado, um projeto de lei incluirá cotas de programas nacionais nos canais de TV a cabo, ou seja, produções brasileiras serão transmitidas obrigatoriamente na televisão paga. Segundo o governo, trata-se de uma forma de incentivar os investimentos nas produções culturais, cinematográficas e televisivas do Brasil. Disso ninguém discorda.

O que se discute, na verdade, é o fato de o governo pretender interferir na liberdade de escolha dos usuários consumidores da TV paga que, ao contrário da aberta, não é uma concessão pública. É um serviço privado, contratado por aqueles que desejam poder escolher o que assistir. Vejam o caso dos canais eróticos, que teriam que transmitir filmes pornôs brasileiros. É o governo incentivando a pornografia. Será que na conta de empregos gerados de Lula entrarão seus atores e atrizes?

Inegavelmente, a produção brasileira para a televisão é de baixa qualidade e essa é a única razão por que aquilo que se produz não é transmitido, tanto pelas emissoras abertas – que diariamente transmitem filmes hollywoodianos – como pelos canais pagos, que quase sempre priorizam produções estrangeiras. 

Configura-se o cerceamento de liberdade de escolha do cidadão que contrata a TV paga. Para piorar ainda mais, o projeto dá preferência às produções nacionais durante o horário nobre. Ou seja, se quiser assistir à série Two and a Half Men, espere pela madrugada. Enquanto isso assista à reprise de alguma novela ou a um programa do Ratinho e afins.

Enfim, esse é um tema ao qual prometo dedicar linhas em breve. Após essa digressão, volto à noite de domingo. Plínio certamente fará falta, pensei. Todos os debates do 1º turno foram ruins. Tenho saudades dos tempos de debates televisivos com candidatos comprometidos com a hora do vamos ver; o é agora ou nunca; ou você não terá outra chance como essa.

Debates devem ser assim mesmo, acalorados, com discussões, nervosismos e acusações. Dizem que a rejeição do candidato aumenta se ele prefere ataques à apresentação de propostas. Não acho que se trate de um dogma eleitoral. O debate serve – ou deveria servir – exatamente para que um candidato pergunte ao outro aquilo que eu, eleitor, gostaria de perguntar se estivesse em seu lugar. E isso invariavelmente envolve algum tema polêmico. Perguntar sobre educação, saúde e segurança é levantar a bola para o adversário fazer campanha. Até porque, precisamente nas eleições presidenciais, tais temas se tornam tão abrangentes que é impossível esgotá-los em 3 minutos ou mesmo em horas de discussão.

Tive vontade de assistir apenas ao primeiro debate do 1º turno. Isso porque havia uma expectativa enorme em torno do comportamento da candidata petista à frente do público e ao vivo. Assisti aos demais pela presença de Plínio e, por vezes, revoltei-me com a postura pacífica e de não-agressão adotada entre os candidatos mais bem colocados. 

Serra, por exemplo, absteve-se de perguntar a Dilma no último debate da Globo, como se ele pudesse se dar esse luxo. Deu sorte, isso sim, porque Marina teve votação surpreendente, que culminou na ocorrência do 2º turno. Dilma também não fica atrás: quando pôde dirigir uma pergunta a Serra, sobre o tema Serviço Público, preferiu perguntar a Marina.

 Em resumo, resolvi ver o debate, após literalmente rodar toda a programação da TV. Logo de cara, a questão do aborto e acusações entre ambos. Animei-me um pouco, porque os candidatos trataram daquilo que deveria ser tratado. Aquilo que está em foco – apesar de ser um tema de ordem pessoal, em que nenhuma opinião pode ser condenada – parte representativa da sociedade anseia por posicionamentos dos candidatos. Dilma, que já deveria ter dado um fim ao assunto há um bom tempo, persiste no erro. Como se disse outrora, ela não admite sua real posição favorável ao aborto e se mostra incoerente nessa questão. O eleitorado percebeu isso, o que pode causar um gravame irreparável para sua candidatura. 

Ela ainda atacou as privatizações de FHC, mas deslizou momentos depois ao afirmar que pretende abrir o capital da Infraero. Serra não soube aproveitar e, a meu ver, também errou ao não refutar as acusações de Dilma à sua esposa e a seu assessor de campanha, que teria fugido com 4 milhões de reais. 

O que se viu no geral foi a candidata petista com uma postura bastante agressiva, por vezes nervosa, com um discurso em que as idéias não se concatenavam e não seguiam um padrão lógico da língua. Serra, embora não seja o melhor orador que já se viu, estava ao menos mais calmo e sereno. Nessa hora, não há dúvidas de que a experiência faz diferença. Dilma foi a poucos debates e nunca fez parte do Legislativo, onde a retórica é exercida com freqüência nas tribunas. Nas considerações finais, Serra, apesar de ter praticamente repetido o discurso do último debate do 1º turno, foi aplaudido. Dilma não. 

Nos debates do 2º turno, há a oportunidade de ver o comportamento dos candidatos. Ver seus semblantes, seus gestos, suas reações diante de uma pergunta inesperada. Isso, não raro, é muito mais determinante do que mil propagandas políticas na TV ou no rádio, que se baseiam nas mega-produções repletas de sorrisos enfeitados e de palavras decoradas.

A parte negativa mesmo ficou com o fraco poder de persuasão de ambos os candidatos. Quintiliano, um dos maiores estudiosos da arte da retórica e da oratória da Roma Antiga, dizia que o orador perfeito seria o homem perfeito. Serra e Dilma deveriam tentar aprender um pouco com seu trabalho. Ainda há tempo.

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2 Respostas to “Debate acabou surpreendendo”

  1. Luciano outubro 14, 2010 às 7:38 am #

    Devemos ser imparciais. A verdade é que Serra faz uma campanha posando de bom moço e pelo submundo está espalhando spams com baixarias.

    Se eu, por acaso começar a dizer que vc é neonazista, que te conheço de longa data e até produzir uma falsa ficha sua, vc tb não reagiria?

    O Brasil é um estado laico, e como tal, é uma pena que essa eleição, por pura falta de confiar no taco da era FHC, que é a prova provada que o Brasil vai parar caso Serra seja eleito, tenha descambado por culpa dos tucanos, para essa santa inquisição.

    lamento ainda que pessoas como você se prestem ao papel de fazer blogs para dar ênfase à esses absurdos. Ainda bem que ninguém vê seu blog.

    Prá falar a verdade, eu acabei chegando nele pois estava procurando no Google sobre doenças tranmitidas pelas fezes… Aí, cheguei em você!

    • contradita outubro 14, 2010 às 1:37 pm #

      Caro Luciano, não devo imparcialidade. Não recebi nenhum spam com baixaria – se bem que não costumo verificar a caixa de lixo eletrônico.
      Tanto tucanos como petistas se utilizam de artifícios contestáveis. Agora, Dilma usar em seu propaganda a política do medo (assim como Serra usou em 2002) é bem baixo. Dilma vai se defender de que? É a favor do aborto, durante anos Erenice foi sua assessora e a SRF concluiu que um petista violou os sigilos fiscais. Então, defender-se todos podem. A população aceitar sua defesa é outra história.
      Agora, você mesmo disse: o Brasil é um Estado laico. Então por que não colocar temas como casamento de gays e aborto na agenda política?
      Quanto a FHC, ele foi demonizado pelo lulismo, e o PSDB errou feio em não defendê-lo. Dizer que “o Brasil vai parar caso Serra seja eleito” é um exemplo da campanha do medo que os petistas estão fazendo por aí.

      E eu dou ênfase, sim! O PT não tem coerência. Não tem ética. Vende até a mãe para se manter no poder. E, de qualquer modo, agradeço pela visita e conto com sua ajuda para divulgá-lo!

      PS: a título de curiosidade, a que doenças transmitidas pelas fezes você se referiu?

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