Desmistificando a demagogia e o aborto

9 out

São Paulo, sexta-feira, véspera de feriado, trânsito, propaganda eleitoral no rádio. Procurei um CD no porta-luvas. Achei um, mas infelizmente o Fantasma da Ópera estava riscado. Não vai tocar, pensei. A situação que estava ruim acabara de piorar: Dilma Rousseff começa a falar.

Nobres palavras em defesa da vida atingem meus ouvidos. Um discurso sereno e alentador me faz esquecer aquilo que já tinha lido, visto e ouvido dela. Fiquei comovido com seu agradável acervo em prol do bem maior. Como não pensei nisso antes? A propaganda política visa a atingir e seduzir o maior número de eleitores possível. Encontraram o denominador comum do povo. Ponto para o PT e Dilma. Acertaram em cheio o eleitorado. Afinal, quem ousaria opor-se à vida?

Dilma mudou. Tornou-se uma pacifista nata, uma incitadora da não-violência, da harmonia. Para o país com maior número de homicídios do mundo, pensei, nada melhor do que a ascensão de uma liderança política carismática capaz de transmitir a mensagem em defesa da vida; uma esperança àqueles que lutam e esperam por ela na fila de hospitais. É disso que o Brasil precisa.

Não sei por que razão retomei a consciência. Acho que foram as longas buzinadas do carro atrás, que já devia estar ali parado e esperando por uns 10 segundos – que, pelo número de buzinadas, pareceram uns 10 minutos.  Finalmente engatei a 1ª e acelerei, mas pelo retrovisor consegui identificar, pelo adesivo gigante em seu capô, os números 1325 ao contrário. Como num jogo de memória de nível profissional, lembrei dele: João Paulo Cunha. Talvez seja porque ele é um dos 40 réus no processo do mensalão, que tramita no STF. Mesmo assim, orgulhei-me da minha memória – vocês já repararam quantos são os candidatos a deputado federal? Entendi também a razão de tantas buzinadas. Talvez esteja na hora de tirar os adesivos de Serra e Alckmin do porta-malas do carro antes que algo pior aconteça. Vamos em frente!

Um pouco, né. Parei de novo. São Paulo tem muitos carros. Sinal de que a economia vai bem na terra da garoa. Continuei a escutar a propaganda de Dilma. Mas, nesse semáforo, as idéias estavam mais esclarecidas. Talvez fossem as buzinadas do mensaleiro.

O discurso de Dilma desencantou. Acabei por associar suas palavras às notícias que havia lido durante toda a semana nos jornais: aborto. Não se fala em outra coisa. Jornalistas renomados e especialistas dizem que a posição favorável ao aborto da candidata petista foi determinante para a ocorrência do 2º turno. Não duvido disso. O Brasil é o país com maior número de católicos do mundo. O cristianismo predomina e mais de 15% dos brasileiros pertencem às religiões evangélicas. E apenas cerca de 7% não possuem religião. Assim, natural que o tema seja colocado – como sempre foi – nos debates em época de eleição.

De qualquer forma, é intrigante o aborto definir uma eleição. Nós sabemos a posição de Dilma e do PT quanto ao tema: são favoráveis. Inúmeros são os documentos e discursos pelos quais se comprova isso. Qual é o problema? Muitos países de 1º mundo permitem o aborto.

Numa democracia, nada mais natural e benéfico que a pluralidade de idéias. Isso é inerente a um país grande, diversificado e com um povo de raças e origens diferentes. O mérito do aborto nem merece discussão. Trata-se de algo personalíssimo e, diferente de Dilma, não terei a pretensão de agradar a gregos e troianos. Deixo essa função àqueles que não possuem caráter íntegro.

Sim, caráter íntegro! Porque como eleitor, sinto-me ofendido ao ver um candidato ao cargo mais importante do país, disfarçar suas verdadeiras posições políticas; esconder seus reais planos de governo. Todos nós sabemos que Dilma é favorável ao aborto. Em 2009 ela assinou o PNDH-3 que, entre outros, criava as bases para sua legalização. Agora, suas falas são repletas de ambigüidades: aborto em determinados casos; aborto até alguns meses; descriminalização do aborto; etc.

Na política sem-vergonha, tais condutas são conhecidas como demagogas. Uma das definições da demagogia é o discurso ou ação que visa manipular paixões e os sentimentos do eleitorado para conquistar facilmente o poder político. É exatamente o que o PT tem feito. A conformidade de idéias do PT acabou em 2002. Durante o governo, vários são os exemplos da política demagoga. O aborto é só mais um.

Muito melhor seria reconhecer logo. Levantar a bandeira da legalidade do aborto e dizer: “Nós somos favoráveis!” Qual o temor? E a coerência e a ética, não contam? Como confiar em candidatos que mudam seu discurso conforme a platéia?

José Serra cometeu erro parecido – guardadas as devidas proporções – ao tentar esconder FHC, execrado e exilado da política pela imoralidade e falsidade do lulismo. No 2º turno, a campanha do PSDB acerta mais e conta com o otimismo da militância. O PT, por outro lado, após a ressaca, erra e tenta ludibriar o eleitorado. Ainda há chão até o dia 31.

Bom, melhor seguir em frente antes que outro petista polua o som desse belo bairro da zelite paulistana, os Jardins. Ou talvez seja melhor esperar para que buzinadas iluminem outros eleitores.

 

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2 Respostas to “Desmistificando a demagogia e o aborto”

  1. Carlota outubro 9, 2010 às 8:28 pm #

    Essa frase foi bem engraçada – a situação que estava ruim acabara de piorar: Dilma Rousseff começa a falar.-

    Creio que a Dilma apoia o aborto até o 3 mes de gestação, como acontece na maioria dos paises desenvolvidos…

    • contradita outubro 9, 2010 às 8:56 pm #

      O problema não é ser favorável ou não ao aborto. Mas tentar enganar o eleitor de forma tão primária.

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